Helio Neto apresenta 'Tabu Policial"

Fonte: Texto foi publicado no 'Internet.Jornal

Data: 18/02/21

No vestiário do batalhão, lá estava mais uma vez, sozinho, o subtenente Gonçalves, há anos seguia à risca um ritual desenvolvido antes de qualquer operação policial. Obrigava-se a chegar horas antes de seus colegas de equipe e com a devida privacidade passava a se preparar mentalmente para as iminentes adversidades que iria enfrentar. Ao pegar o coturno do pé direito para calçar, a cena o remete a uma lembrança adormecida da adolescência. Recorda-se do exato momento em que estreou o novo par de chuteiras presenteadas por seu pai, que com esforço financeiro conseguiu poupar a quantia necessária e lhe proporcionar enorme alegria. Na ocasião, jogava na escolinha de divisões de base do seu time de coração, cujo campo do clube ficava quilômetros e quilômetros de distância do bairro no subúrbio onde morava. Seu genitor lhe possibilitava os meios para que mantivesse a extenuante e custosa rotina de treinos e estudos, não era fácil para um garoto de treze anos, mas sabia que tinha talento e perseverava nesse objetivo. No entanto, a vida lhe impôs uma terrível tragédia, e quando retornava contente para casa com seu pai após a uma magnífica vitória num jogo oficial, sofrem um assalto. Não há qualquer esboço de reação, mesmo assim, por pura maldade os criminosos alvejam seu protetor, que desfalece ali mesmo na calçada. A partir daquele fatídico dia, inúmeros desdobramentos ocorreram. Não tardou para se tornar inviável permanecer nos treinamentos de futebol, passou a ter que trabalhar, essencial para ajudar na renda familiar, aprendeu a ser engraxate, depois vieram outros tantos ofícios. O sonho de ser jogador sucumbiu para sempre. Gonçalves desperta de sua reminiscência, cerca de trinta anos tinham se sucedido desde a morte de seu pai. Prometeu vingança, continuava firme nesse propósito, segregar os inimigos da sociedade se tornou sua grande obsessão. Todavia, ceifar tantas vidas de bandidos que porventura cruzaram seu caminho havia paulatinamente modificado sua personalidade. Tornara-se um sujeito circunspecto, de poucas palavras, que jamais exteriorizava detalhes de suas diversas missões. Era respeitado dentro e fora dos quadros de seu batalhão, seu arrojo profissional ganhara destaque quando ainda soldado, os encargos mais difíceis eram propositalmente planejados para o turno de sua equipe. Participar de troias em favelas cariocas (infiltração e permanência dissimulada ao lado de poucos companheiros de farda dentro das linhas inimigas para deflagrar ataque surpresa) não era para qualquer um, poucos se dispunham a fazê-lo, pois caso algo saísse do programado, não haveria tempo suficiente de um resgate seguro, ficariam à mercê da própria sorte. Desenvolveu habilidades, aprimorou-se tecnicamente, concluiu cursos operacionais, mas ao longo dessa exitosa trajetória, jamais lhe foi transmitida uma só palavra acerca das maléficas implicações espirituais advindas de tantas mortes em seu currículo. Nunca, em nenhuma palestra, o tema atinente aos reflexos do equilíbrio espiritual foi abordado. permanecia abafado, mantinha-se sendo um tabu. Nesse árduo caminho, testemunhou fenômenos estranhos, lidou com a morte de perto, foi ameaçado por bandidos agonizantes, espíritos involuídos o amaldiçoaram em seus últimos suspiros, assim interpretou. Sua áurea modificou, a energia de seu lar ficou desequilibrada. Outrora cético em relação a qualquer crença religiosa, magoado pelo drama familiar, passou a tentar buscar respostas para os sinistros acontecimentos. Frequentou terreiros de candomblé, templos evangélicos, igrejas católicas, não necessariamente nessa ordem. Optou por suas próprias adaptações, sabia o quão complexo era o assunto. Nesse sentido, certifica-se de que o recinto está vazio, retira sua camiseta, em suas costas nuas se destacam duas enormes tatuagens, a de Ogum e a de São Jorge, ambos guerreiros, lado a lado, fixadas há muitos anos desde o resgaste de sua fé. Estampa-se na pele o singular sincretismo religioso. Goncalves evitava expor desnecessariamente suas imagens, sabia que elas despertariam a curiosidade alheia, talvez até críticas veladas. Mesmo tendo se tornado devoto, não gostava de explicar as minúcias que o levaram até aquele ponto, mas sua crença em algo maior salvara sua alma, concluíra dessa maneira. Veste seu uniforme azul petróleo, cobre-se, se preserva. Retira de seu armário a bíblia, lê o Salmo 91:7: “Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido”.

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Hélio C. Freitas Filho, agente de polícia federal, carioca, casado, radicado no Espírito Santo, Bacharel em Direito e Administração.