Agentes federais revelam bastidores de operações contra o tráfico de drogas no Espírito Santo

Experientes, Marcelo Thompson e Renato Cabral mostram o quanto são complexas as investigações relativas ao narcotráfico. Eles mostram, nesta entrevista, como chegaram a grandes traficantes e os colocaram atrás das grades.

Fonte: Blog do Elimar Côrtes

Data: 19/11/20

O trabalho é minucioso, envolve horas e horas de dedicação, além de gente dedicada à parte de Inteligência, em busca de informações para subsidiar as atividades dos agentes que estão nas ruas. Todo o processo é conduzido por agentes de Polícia Federal. O combate ao tráfico de drogas é uma operação complexa e de múltiplos esforços.

“O tráfico de drogas é um crime que demanda muitas horas de apuração e é muito dinâmico, ele vai mudando a forma de atuar. Nós, agentes, somos sempre desafiados, sempre aparece algo novo, precisamos sempre nos atualizar também”, destaca o agente de Polícia Federal Renato Cabral, que integrou por 27 anos e meio a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da Polícia Federal.

E enquanto o setor de Inteligência se dedica, por exemplo, a escutas telefônicas, a equipe operacional acompanha o dia a dia de suspeitos, produzindo relatórios de atividades. Tudo o que é produzido, até chegar ao momento de flagrante, é documentado e, na fase processual, vai servir de base para o julgamento do caso.

“Todos os procedimentos de Inteligência e de rua, executados pelos agentes, são descritos em um documento final, com imagens, transcrições e informações de todos os envolvidos naquela operação. Até chegar ao momento da apreensão, é um longo caminho porque precisamos entregar provas consistentes da investigação, só a materialidade não basta”, observa o agente de Polícia Federal Marcelo Thompson, integrante da DRE por 22 anos.

Com tanto tempo de experiência no combate ao tráfico, os agentes analisam que a repressão ao crime poderia ser mais efetiva se houvesse integração entre as forças de segurança pública do País. Eles eles frisam ainda que desde 2013 houve uma mudança de direcionamento no combate às associações criminosas ligadas ao tráfico.

O foco, do tráfico interno, passou a ser para o tráfico internacional, com muitas ações e apreensões nos portos, o que levou a um aumento significativo de substâncias apreendidas. A cocaína, por exemplo, saltou de 27,1 toneladas em 2010, para 100 toneladas em 2019, em todo o Brasil.

“O tráfico internacional é vistoso, grandes apreensões com volumes que saltam aos olhos. Os resultados são, estatisticamente falando, volumosos, bonitos de se tirar fotografia, mas nós não podemos perder de vista que somos funcionários públicos brasileiros. Ganhamos salários pagos pelo governo brasileiro, através de impostos caros cobrados do povo brasileiro. É a este público que devemos resultados e pronto emprego de nossas capacidades. A repressão ao tráfico internacional é devida, e como já dita, resulta em números volumosos, mas é à sociedade brasileira que devemos mais empenho”, pondera Cabral.

Com a vivência de tantos anos dedicados ao combate a esse tipo de crime, eles defendem que a punição a quem trafica drogas seja mais dura.

“As penas para o crime de tráfico de drogas deveriam ser equiparadas às dos crimes contra a saúde pública. O tráfico é um crime muito cruel, ele rouba o que as pessoas têm de mais precioso, que é a vida”, afirma Thompson.

Trabalho duro

Entre os tantos casos e operações dos quais Renato Cabral e Marcelo Thompson fizeram parte, um marcante remonta ao final do ano de 1998. Traficantes trouxeram cocaína do Recife para embarcá-la no Porto de Vitória. O aviso partiu da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) de Pernambuco: uma quadrilha originalmente estabelecida naquele Estado estava a caminho do Espírito Santo para comercializar a droga.

Primeiro, chegaram três suspeitos. Dois deles, incluindo o chefe da quadrilha, se hospedaram no então Hotel Costa Mar, na orla da Praia da Costa, em Vila Velha. Um terceiro homem, que andava a pé e vestia apenas camisas de times de futebol, foi para o então Hotel Paris, no Centro de Vitória. Outros dois integrantes do grupo foram para casas de familiares ou amigos, em endereço não identificado, no primeiro momento.

Os agentes federais da DRE da Superintendência Regional da Polícia Federal no Espírito Santo intensificaram a vigilância sobre as atividades do grupo, por praticamente 24 horas, ao longo de dez exaustivos dias. Foi necessário pedido de reforço, inclusive.

O trabalho combinado de Inteligência e operacional, nas ruas, detectou que a droga seria entregue no hotel da Praia da Costa, em uma picape modelo Chevy 500.

O veículo, de fato, foi visto na Praia da Costa, mas, devido ao trabalho já extenuante de dias seguidos dedicados à operação, a entrada e a saída do Chevy do hotel foi perdida.

“Junto ao hotel, o agente Thompson e eu estávamos com nossa unidade de rastreio de sinais. Sim, naquela época, já possuíamos um veículo laboratório para interceptação de sinais, porém, não tínhamos a visão da fachada frontal do hotel, e, portanto, não teríamos visão de qualquer movimento. Este seria de responsabilidade da equipe de rua, a vigilância a pé, que não percebeu a movimentação em decorrência do exaustivo trabalho de todos os agentes incumbidos da missão”, relembra Cabral.

Após uma longa discussão sobre a melhor estratégia em plena madrugada, na Avenida Gil Veloso, em Vila Velha, os agentes se reagruparam na DRE, alguns chegaram a dormir ali mesmo. Pela manhã, eles se reuniram e retomaram suas posições determinados a dar o “abraço de urso” nos traficantes. O dia foi longo.

A movimentação dos criminosos se intensificou. Com vigilância embarcada, a pé e uma unidade de Inteligência, além da equipe monitorando tudo de dentro da DRE, o desfecho da operação se deu ao fim da tarde, na Baía de Vitória.

O embarque da cocaína, como suspeitavam os agentes, seria a partir do Centro. O suspeito que usava camisas de um clube de futebol seguiu com as bolsas contendo cocaína em tabletes em uma catraia rumo ao navio.

A embarcação foi interceptada por uma lancha da PF. A ameaça de jogar a sacola com a droga no mar foi respondida com uma rajada de metralhadora. Enquanto isso, em terra, outra parte da equipe rendeu e deu voz de prisão ao chefe da quadrilha, que observava a mercadoria sendo interceptada na água.

Os presos e os 40 quilos da droga foram levados para a Superintendência da Polícia Federal. Lá, foi a vez de identificar quem da tripulação do navio fazia parte do bando. O que acabou sendo fácil, pois os criminosos presos possuíam  rascunhos com as informações..

Faltavam ainda dois criminosos, cuja estadia era desconhecida, apenas se sabia que estavam em um carro Pálio, branco, com placa do Rio de Janeiro.

“No outro dia, eu saindo da minha casa para a Superintendência da PF, retomando a rotina, dei de cara com o Pálio branco, alguns metros à frente do meu endereço. Não fiz outra coisa a não ser ligar imediatamente para o colega que eu lembrasse morar mais perto de mim e me ajudar no que houvesse a partir dali. E o que houve foi que os caras estavam hospedados ali, ao meu lado e nós não tínhamos ainda tido a felicidade de confirmar isso. Não deu para eles, algum tempo depois, saíram para, segundo eles, comprar peixe para o almoço e ali mesmo foram presos ainda dentro do flagrante,” conta Cabral.

O caminho da droga

A investigação sobre dois homens suspeitos de tráfico de maconha em Cariacica levou uma equipe de agentes de Polícia Federal até São Paulo. O caso ocorreu em 2008. Após a vigilância nas ruas e com o monitoramento de Inteligência, foi constatado que os suspeitos fariam uma viagem em direção ao Sul do Estado.

É prática dos agentes que atuam na DRE manter uma bagagem dentro das viaturas para pequenas viagens, pois não é incomum que pequenos deslocamentos se transformem em viagens mais duradouras.

O rastreio dos dois suspeitos seguiu pela estrada até o bairro Pari, na cidade de São Paulo, onde os bandidos entraram em uma oficina mecânica. De lá, seguiram até outro carro, com placa do Espírito Santo, que estava com a tampa do motor aberta, indicando algum problema.

Ainda na oficina, foi feito um pagamento em espécie. A seguir, os suspeitos deixaram a oficina e tomaram o caminho de volta ao Espírito Santo. O fato foi comunicado à DRE-ES e os agentes retornaram ao ponto de vigilância. Na manhã seguinte, os dois homens estavam de volta ao Estado.

Na oficina, o antigo Santana Quantum continuava sob reparo, o que continuou também no dia seguinte. Na manhã do terceiro dia, o carro tinha saído da oficina.

“Naquele momento, nos identificamos como policiais ao dono do estabelecimento e ele informou que o carro não havia ficado pronto, que o motorista ainda não identificado não iria muito longe, pois de certo o carro iria travar o motor. Contou também que o motorista do carro mostrava muita ansiedade e o pagamento havia sido feito em dinheiro pelos homens que chegaram lá do Espírito Santo e que, por último, o motorista perguntou como que pegava o caminho para o Rio de Janeiro, no que foi orientado pelo dono da oficina. E nós fomos atrás no mesmo caminho indicado pelo proprietário do estabelecimento”, relata o agente de Polícia Federal Renato Cabral.

Na cidade de Taubaté, ainda no Estado de São Paulo, os agentes avistaram o carro parado em um posto de gasolina abandonado e retomaram a vigilância. Enquanto isso, no Espírito Santo, outra equipe da DRE identificou que os dois suspeitos, com o reforço de um terceiro homem, contrataram um caminhão guincho, voltando à estrada logo em seguida.

O trio chegou a Taubaté por volta das 5 horas para guinchar o carro de volta para o Estado, sempre acompanhados de perto pelos agentes de Polícia Federal. O guincho foi abordado no posto da Polícia Rodoviária Federal (PRF) de Guarapari. Após a constatação de maconha no veículo, foi efetuada a prisão em flagrante dos três homens, que já estavam de volta a Cariacica.

O carro e o guincho foram levados para o pátio da Superintendência da PF, em Vila Velha. Lá, depois de desmontado o veículo, verificou-se a presença de forma ocultada, de mais de 200 quilos de maconha.

“Este grande serviço de vigilância perdurou por pelo menos quatro dias, apenas na fase final da operação, quando os criminosos efetuaram o primeiro deslocamento para a cidade de São Paulo, o seu segundo retorno àquele Estado e a volta para Cariacica, onde foram finalmente presos”, pontua Cabral.

Chefe do tráfico

Considerado um dos homens mais perigosos do Espírito Santo, o traficante José Antônio Marim, conhecido como Toninho Pavão, entrou na mira dos agentes federais a partir de uma investigação que estava sendo conduzida em Rondônia. No início dos anos 2000, era de lá que vinha grande parte da droga comercializada em terras capixabas.

De acordo com o agente de Polícia Federal Marcelo Thompson, a saga de Pavão se tornou pública após a primeira prisão do criminoso, ocorrida em janeiro de 2000, com a apreensão de 33 kg de cocaína. Nessa mesma operação policial, foram presos também o fornecedor da droga e um químico boliviano, responsável pelo acréscimo de volume da droga em um laboratório encontrado num sítio na região de Calogi, na Serra.

“Na sequência de sua primeira prisão, vieram diversas outras apreensões de droga, maconha e cocaína, e uma sequência de fugas envolvendo responsáveis por sua custódia no sistema prisional. Incluindo aí o conhecido episódio da fuga pela porta da frente do presídio, vestido de mulher. A apreensão de maior volume foi de 1,7 tonelada de maconha, encontrados num galpão na região de Chácara Parreiral, na Serra”, relembra Thompson.

Investigações conduzidas pelos agentes federais mostraram que, de 1999 a 2003, Pavão e a quadrilha dele assaltaram cerca de 100 bancos no Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Minas Gerais e Bahia. A estimativa é de que a quadrilha movimentava mensalmente cerca de 1,5 tonelada de maconha, comprada na fronteira do Paraguai

“Transferido para um presídio federal junto a outros 15 detentos após uma série de incidentes nos presídios capixabas, inclusive também com queimas de ônibus na Grande Vitória, ele mantém ainda sua influência em parte do tráfico na Grande Vitória através de outros criminosos a ele ligados”, alerta Thompson.

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