BBC News - O que se sabe da prisão de Roberto Jefferson em operação que deixou 2 integrantes da PF feridos

Fonte: BBC

Data: 24/10/22

AGÊNCIA BRASIL

Integrantes da Polícia Federal foram recebidos a tiros de fuzil e granada quando cumpriam a ordem de prisão do ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB) em sua casa no município de Comendador Levy Gasparian (RJ) neste domingo (23/10). A agente Karina Oliveira e o delegado Marcelo Vilella ficaram feridos por estilhaços.

Após horas de resistência, o ex-parlamentar se entregou à polícia no começo da noite — o presidente Jair Bolsonaro determinou que o ministro da Justiça, Anderson Torres, fosse ao Rio de Janeiro e encerrasse a crise que envolve o aliado político.

Durante o tempo em que resistiu à prisão, o ex-deputado gravou um vídeo sobre a chegada dos policiais a sua casa em que dizia: "não vou me entregar porque acho um absurdo. Chega, me cansei de ser vítima de arbítrio".

Ele usou na gravação imagens do circuito de segurança para mostrar os agentes nas proximidades. Em uma fala, confirmou que fez os disparos, mas afirmou que "não atirei em ninguém para pegar, ninguém. Atirei no carro e perto deles".

Os estilhaços da granada deixaram os integrantes da PF feridos. A corporação disse que "além da prisão judicial, o investigado também foi preso em flagrante sob a acusação, inicial, de tentativa de homicídio".

Segundo informações da TV Globo, Jefferson seria levado à sede da PF no Rio para depois fazer exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal e seguir para a prisão de Bangu 8.

Durante a tarde, apoiadores de Jefferson e Bolsonaro em Comendador Levy Gasparian se reuniram em torno da residência e chegaram a agredir um cinegrafista de uma afiliada da TV Globo na região.

Segundo a emissora, Rogério de Paula, de 59 anos, levou um soco, caiu no chão, bateu a cabeça e teria tido um início de convulsão. A câmera que ele usava quebrou. O cinegrafista foi levado para um hospital e estava lúcido e sem sangramento.

Por que Jefferson voltou à prisão

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, havia ordenado a revogação da prisão domiciliar de Jefferson após ele proferir uma série de ofensas à ministra Carmen Lúcia, do STF.

Uma das condições para o benefício da prisão domiciliar era de que Jefferson não fizesse postagens na internet.
Ele gravou no sábado (22) um vídeo chamando a ministra de "Carmen Lúcifer" e afirmava que a magistrada "lembra aquelas prostitutas, aquelas vagabundas arrombadas".

Em sua decisão, Moraes justificou que "está largamente demonstrada, diante das repetidas violações, a inadequação das medidas cautelares (...) o que indica a necessidade de restabelecimento da prisão".

O ex-parlamentar é investigado em um inquérito sobre a atuação de uma organização criminosa que tem como objetivo "desestabilizar as instituições republicanas".

Após Jefferson reagir com violência, o ministro do STF emitiu no domingo uma segunda ordem para que "diante de todo exposto, independentemente do horário" se efetuasse a prisão.

E afirmava que "a intervenção de qualquer autoridade em sentido contrário, para retardar ou deixar de praticar, indevidamente o ato, será considerada delito de prevaricação".

Associações de policiais reagem

A Polícia Federal emitiu nota em que relata que "durante a diligência, o alvo do mandado reagiu à ordem de prisão anunciada pelos policiais federais. Na ação, dois policiais foram feridos por estilhaços de granada arremessada pelo alvo e levados imediatamente ao pronto socorro. Após o atendimento médico, ambos foram liberados e passam bem".

A Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) emitiu nota para "manifestar o seu mais veemente repúdio ao ato de violência".

"A reação violenta contra policiais é um atentado contra o próprio Estado e uma ofensa incomensurável à ordem jurídica."
Tania Prado, presidente da Federação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (Fenadepol), disse no Twitter que "os fatos ocorridos hoje são gravíssimos, trata-se de tentativa de homicídio qualificado praticado contra policiais federais".

Bolsonaro e Lula se pronunciam

Candidato à reeleição, Bolsonaro (PL) fez um primeiro comentário sobre o episódio no começo da tarde.

"Repudio as falas do Sr. Roberto Jefferson contra a Ministra Carmen Lúcia e sua ação armada contra agentes da PF, bem como a existência de inquéritos sem nenhum respaldo na Constituição e sem a atuação do MP".

Bolsonaro ainda disse ter determinado "a ida do Ministro da Justiça ao Rio de Janeiro para acompanhar o andamento deste lamentável episódio".

Horas mais tarde, com a prisão de Jefferson, o presidente gravou um vídeo postado nas redes sociais em que mudou o tom e chamou o aliado político de "criminoso" no texto do post.

"Como havia determinado ao ministro da Justiça, Anderson Torres, Roberto Jefferson acaba de ser preso. O tratamento dispensado a quem atira em policial é de bandido. Presto minha solidariedade aos policiais feridos no episódio."

O candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT), quando eram veiculadas as primeiras informações sobre o caso, declarou que "não é um comportamento adequado, não é um comportamento normal" a reação de Jefferson.

"Antes de ontem eu estava em Minas Gerais, e Marina [Silva, deputada federal eleita que participou de ato com Lula] estava jantando em um hotel e quando ela levantou, um cidadão, que estava com a sua esposa, levantou e começou a chamar ela de vagabunda. Isso não acontecia na política brasileira nunca. Nós disputamos tantas eleições a gente nunca viu uma aberração dessa, uma ofensa dessa, uma cretinice dessa que esse cidadão, que é o meu adversário, estabeleceu no país."

Alexandre de Moraes se solidarizou em postagem no Twitter com os integrantes da PF feridos.

"Parabéns pelo competente e profissional trabalho da Polícia Federal, orgulho de todos nós brasileiros e brasileiras. Inadmissível qualquer agressão contra os policiais. Me solidarizo com a agente Karina Oliveira e com o delegado Marcelo Vilella que foram, covardemente, feridos."

Anteriormente, ele havia se pronunciado sobre a ofensa de Jefferson à ministra.

"As agressões machistas e misóginas contra a Min Carmen Lúcia, exemplo de magistrada, demonstram a insignificante e covarde estatura moral daqueles que pretendem se esconder em uma criminosa 'liberdade de agressão', que não se confunde com a liberdade de expressão."

A Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) havia solicitado a revogação do regime domiciliar de Jefferson. Os senadores Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e Eliziane Gama (Cidadania-MA) também tinham feito o pedido ao STF.

Jefferson gravou o vídeo para criticar um voto de Carmen Lúcia no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Em janeiro, Moraes determinou que Jefferson ficasse em regime domiciliar e com tornozeleira eletrônica. Na época, o ministro do STF já havia advertido que o descumprimento das medidas poderia ocasionar o restabelecimento da prisão preventiva.

O ex-parlamentar estava preso desde agosto de 2021 pela suspeita de participação na milícia digital que faz ataques a instituições democráticas.

Em uma das entrevistas transcritas, Jefferson afirma que é preciso "concentrar as pressões populares contra o Senado e, se preciso, invadir o Senado e colocar para fora a CPI a pescoção". Em outra, diz que o Brasil necessita "fazer uma limpeza, começando pelo Supremo, ninho de bruxas e urubus".

Mais reações

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), disse que "o Brasil assiste estarrecido fatos que, neste domingo, atingiram o pico do absurdo. Em nome da Câmara, repudio toda reação violenta, armada ou com palavras, que ponham em risco as instituições e seus integrantes. Não admitiremos retrocessos ou atentados contra nossa democracia".

Sergio Moro, ex-ministro da Justiça e senador eleito, fez um breve post: "Coisa mais sem noção esse ataque aos agentes da PF. Espero que estejam bem. Minha solidariedade".

A BBC News Brasil fez contato com representantes do PTB para saber o posicionamento do partido do qual Jefferson foi presidente sobre o episódio e aguarda resposta.

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