As vítimas indiretas da violência
Data: 20/01/16

Paula (nome fictício) soube em 2010 (somente dois anos e oito meses depois), que seu filho foi assassinado e sepultado como indigente em Campinas, Interior de São Paulo. Quando sua filha preparava a documentação para identificação e reconhecimento do óbito, o genro cometeu suicídio. Na outra ponta, Ana (nome fictício) viu seu marido, soldado da Polícia Militar, ser morto quando saía para o trabalho. Na época, o policial deixou seu enteado com dez anos e um filho com nove meses de vida.
Estas são apenas duas histórias das centenas existentes sobre “vítimas indiretas” - familiares de pessoas que morreram de forma violenta. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), 58.559 brasileiros foram mortos de forma violenta no país em 2014. Apesar de ser difícil mensurar em números a quantidade de viúvas, filhos e outros familiares que sofreram a perda por cada pessoa assassinada, podemos imaginar a dimensão das sequelas deixadas. Especialistas afirmam que vítimas indiretas sofrem traumas psicológicos, perdas financeiras, indignações das mais diversas e outros problemas sociais. Em São Paulo, a Secretaria Estadual da Justiça e da Defesa da Cidadania, mantém um Centro de Referência e Apoio à Vítima (CRAVI) que possui equipes multidisciplinares compostas por psicólogos, assistentes sociais e advogados para orientarem e atenderem vitimas e familiares de vítimas de crimes como homicídio, latrocínio, ameaça, violência doméstica, violência sexual e tráfico de pessoas. Na capital, o CRAVI, em parceria com o Ministério Público Estadual, Tribunal de Justiça do Estado e Defensoria Pública do Estado, recebe em média 120 pessoas por mês, no Fórum Criminal da Barra Funda. Há também outros Centros de Referência no Interior do Estado. “O criminoso que matou meu filho também fez uma vítima que sobreviveu. Essa vítima sou eu”. Essa é uma das frases de uma vítima indireta da violência encontrada na cartilha de apoio divulgada pelo CRAVI.“A vítima chega com medo de falar alguma coisa dentro do fórum, dentro do CRAVI, algo que possa ser escutado pelos vizinhos ou por quem viu a cena do crime, ou alguém que possa lhe fazer algum mal. Ela chega com medo muito grande. Por outro lado, têm outras vítimas querendo que suas vozes sejam ouvidas por todas as pessoas e todos os órgãos públicos”, explica o psicólogo do CRAVI, Bruno Fedri.
Para Bruno, o conceito de justiça é subjetivo. “Podemos oferecer o acesso à justiça, o CRAVI realiza esse trabalho, mas ficamos atentos a que tipo de justiça essa vítima pede. Não raros os casos, ela entende por justiça como vingança. Acha justo que o autor seja morto, pensa que, se ele matou seu filho (por exemplo), nada mais justo que a lei de talião (olho por olho, dente por dente) possa ser aplicada. Diante disso, tentamos pensar com a vítima formas de justiça possíveis, dentro do próprio sistema legal”.
Na opinião do psicólogo, é importante que a vítima indireta externe suas emoções. “É importante que ela utilize esse espaço para falar da raiva, uma vez acolhida e escutada, possa ser elaborada e utilizada para fins construtivos”. Ele citou um exemplo de uma mãe que descreveu como queria matar o assassino de seu filho e, depois do desabafo, desistiu da ideia. “É difícil imaginar que a humanidade, um dia, se dê conta de que a violência gera apenas e nada mais do que violência. Mas é possível acreditar e, mais do que isto, trabalhar para aqueles que sofrem o trauma da violência encontrem resposta, apoio, abrigo, alento e, mais que tudo, respeito, especialmente quando procuram o serviço público”, escreveu o Promotor Flávio Lorza.Fonte: PortalSP
