O delegado Luiz Fernando Corrêa vai entrar para história da Polícia Federal como o diretor-geral que assumiu o cargo com apoio da maioria dos servidores e irá sair com mais de 80% de rejeição. Mas engana-se quem vê o índice de rejeição do delegado Luiz Fernando apenas como resultado de sua administração. Os mais de 80% de rejeição são também o sintoma de uma polícia com servidores desmotivados e sem a devida valorização de suas funções dentro do órgão...
Historicamente, os Escrivães DE Polícia Federal sempre estiveram atrelados a uma autoridade policial. Historicamente, quando o EPF sai de férias, licença, viaja em missão, de duas uma: ou os inquéritos sob a carga daquele servidor permanecem parados (fato menos comum) ou outro escrivão é designado para acumular aquela carga (fato mais comum), o que é humanamente impossível cumprir a contento. Historicamente, quando um EPF se afasta, por qualquer motivo, quando do seu retorno, percebe que as “torres gêmeas” não caíram e, sim, foram transportadas para a sua mesa...
A revista Época desta semana ainda repercute o plebiscito que reprovou a gestão do atual diretor geral da Polícia Federal. Em nota, a revista registra a esmagadora rejeição ao DG.A publicação destaca que em 22 estados do país os servidores disseram não ao diretor.
A Vigilância Sanitária apresentou laudo reiterando várias determinações anteriores não cumpridas pelo DPF para que as instalações tivessem condições mínimas de funcionamento. “O corpo de bombeiros, depois de realizar inspeção informou que caso a custódia não seja totalmente reformada ou fechada pode haver interdição de todo o prédio da Delegacia”, revela a delegada sindical Bibiana Orsi...
O teor das considerações expressas neste espaço são de inteira e exclusiva responsabilidade dos respectivos signatários, inclusive no caso de ações judiciais. Portanto, as opiniões aqui expressas não tem qualquer vínculo com a FENAPEF.
30/10/2009
Por: Silvério da Costa Oliveira
Meu Doutorado em Psicologia Social pela UERJ foi sobre o tema “criatividade e controle nas organizações de trabalho” e tendo iniciado o mesmo em 2003, passei dois anos de minha vida (de 2005 a abril de 2007, quando defendi a Tese) dentro das instalações do Corpo de Bombeiros Militar do Rio de Janeiro – CBMERJ, no restante do ano de 2007 me dediquei a arrumar meus livros, textos e publicações, posteriormente, de 2008 em diante voltei-me novamente para instituições na área de segurança pública, de modo que este está sendo um tema pelo qual cada vez mais me interesso.
Como carioca que também sou, os últimos acontecimentos divulgados pela grande mídia e com repercussão internacional não poderiam deixar de somarem-se aos meus atuais interesses em segurança pública. Com certeza o dia 17/10/2009 será para sempre um sábado com gosto amargo para nós cariocas e para os demais brasileiros decentes deste país.
É importante por um fim e um basta definitivo nesta situação caótica a qual nossa cidade maravilhosa foi levada por sucessivas políticas desastrosas na área social e de segurança pública.
Hoje o problema do Rio de Janeiro se encontra profundamente vinculado ao tráfico internacional de drogas ilícitas (maconha, cocaína, crack, ecstasy, etc.) e armas (pistolas, fuzis, sub-metralhadoras, granadas, etc.), mas tudo tem um começo e erros do presente encontram acolhida em erros do passado. O jogo do bicho, que nasce por volta de 1892, tende a crescer e ocupar todos os espaços onde o Estado não se fazia completamente presente, com ele se cria uma vasta rede de contatos e um pequeno grupo de pessoas altamente influentes na sociedade, bem como, os alicerces de uma economia informal capaz de gerar altas somas de capital. Criam-se relações sociais e papéis definidos, surgem lideranças nas comunidades e relações de fidelidade a certas pessoas ou grupos. A idéia básica dos líderes do jogo do bicho era defender e controlar o seu próprio território.
Até a década de 1970 o Rio de Janeiro era somente rota de passagem para drogas em direção a Europa e EUA, posteriormente, passou o Brasil a ser também destino destas drogas, passando a ser criado um mercado consumidor mais expressivo em terras tupiniquins. O jogo do bicho e o narcotráfico tiveram uma convivência pacífica e pode-se mesmo dizer que andaram em parceria, em particular de 1970 a 1990. Desta relação o narcotráfico herdou os contatos e influência presente na teia social do jogo do bicho, encontrando um berço propício para crescer e se fortificar. Dos anos de 1990 para cá houve uma gradativa substituição do poder dos controladores do jogo do bicho pelo poder exercido pelos narcotraficantes. O choque de interesses entre os dois grupos de contraventores começa a surgir após a década de 1990, quando aos poucos o narcotráfico vai substituindo a antiga política dos chefões do jogo do bicho de defender e controlar o seu território pela política de atuar em facções criminosas, passa a haver um comando estruturado e organizado que mais o aproxima de uma moderna empresa que controla tecnologias e conhecimentos que lhe auxiliam na sua sobrevivência diante de um dado mercado, inclusive, com pessoas que atuam diretamente na linha de frente e outros que somente investem capital na expectativa de lucro, da mesma forma que uma pessoa poderia comprar ações de uma dada empresa, aplicando ali o seu dinheiro.
O fato de o narcotráfico ter se sofisticado a ponto de assemelhar-se a uma moderna empresa é que me leva a questão de entender ser completamente errado quando a mídia chama o bandidozinho do morro de traficante, pois, não é este que aplica o grande capital responsável pelo tráfico internacional de armas e drogas.
Políticas equivocadas na área de segurança pública permitiram que a situação crescesse a este ponto vergonhoso no qual nos encontramos agora e não irá parar aqui se medidas de médio e longo prazo não forem tomadas.
Em vez de se discutir se há ou não um Estado paralelo no Rio de Janeiro, é fundamental que o Estado constituído e de Direito se faça presente em todos os setores e regiões de nossa cidade. Penso que o projeto de se transformarem as atuais favelas em bairros a serem integrados a cidade do Rio de Janeiro, apesar de caro, é uma das melhores alternativas já propostas até o momento. Já que as favelas vão continuar onde estão, cabe ao poder público re-estruturar as mesmas, proporcionando ruas transitáveis ou vias de acesso e comunicação que permitam a livre circulação de todos, creches, escolas, postos de saúde e a presença constante da polícia como em qualquer outro bairro. Da mesma forma que em qualquer outro bairro, o efetivo da polícia deve ser pautado pela necessidade que a região enfrenta naquele momento.
As favelas se tornaram o ponto preferencial de controle do narcotráfico, onde drogas e armas são recebidas e armazenadas, servindo como entrepostos para distribuição no varejo das drogas, no entanto, nem armas e nem drogas são geradas em tais regiões, não somente precisam entrar no Rio de Janeiro, pois o Estado não é produtor, como também precisam entrar nas favelas. Cabe não somente um maior controle das vias de entrada no Estado, como também, das poucas, e digo pouquíssimas, vias de entrada nas favelas. Não basta retirar armas e drogas das favelas por meio de constantes apreensões policiais, é necessário, também, impedir sua chegada em tais regiões, criando um desabastecimento do tráfico a partir de um maior controle policial das ruas de acesso a determinadas áreas da cidade que possuem um histórico de confronto e dominação pelo narcotráfico.
Não se pode controlar as vias de entrada no Estado? Controle-se então as vias de entrada nas comunidades que servem de base para o narcotráfico, cortando ou diminuindo drasticamente o fornecimento de armas e drogas. Mas desde já aviso, tal é possível, mas terá como resposta um aumento da criminalidade em outras vias alternativas para tais comandos, como, por exemplo, o assalto a agências bancárias, tomada de cidades pelo interior e assalto a carros fortes dentre outras modalidades de crime organizado. As conseqüências serão graves e compartilhadas por não somente outras cidades, mas também outros Estados, no entanto, ou se age com seriedade no combate deste flagelo ou se entrega as chaves, não digo nem da cidade maravilhosa, mas logo do Brasil de uma vez por todas para a bandidagem internacional.
Mas uma coisa, policial tem de entrar em qualquer lugar, pois se entende que este está sempre de trabalho. Eu vejo que em outras regiões de nosso gigantesco país, mesmo em áreas ditas perigosas, policiais que queiram se aventurar podem delas entrar e sair, pois, os bandidos têm medo de confrontar-se diretamente com a polícia e esta ainda impõe respeito. Já no Rio de Janeiro e em alguns outros pontos bem específicos do território nacional, quem tem medo é a polícia e um policial ou mesmo bombeiro militar não freqüenta qualquer lugar, não vai a qualquer bairro ou região, pois, sabe que não voltará com vida e ainda terá uma morte das mais cruéis nas mãos de impiedosos bandidos. Volto a dizer, policial tem de ir a qualquer lugar, pois, se o policial que possui um distintivo, formação própria, usa uma arma, tem medo de entrar em alguma área da cidade, o que dizer então do restante da população e dos próprios moradores desta área que tem de conviver com um mundo de incertezas diante de uma única certeza: a ausência do Estado.
Nada fazer agora é perpetuar o atual estado de coisas e aguardar a próxima manifestação escandalosa do crime organizado diante do Estado desorganizado.
Pergunta: Quais sugestões e propostas você daria para combater o crime organizado e suas demonstrações de força em território nacional?
*Silvério da Costa Oliveira é agente de polícia federal lotado no NO/DREX/SR/DPF/TO. Formado em psicologia e filosofia, com Mestrado em Psicologia e o Doutorado em Psicologia Social, autor de alguns livros e antes de entrar no DPF trabalhou como professor e pesquisador em universidades.
Blog: www.doutorsilverio.blogspot.com
Fonte: Agência Fenapef