Cardozo defende Comissão da Verdade

16 de Março de 2011

Numa resposta a setores militares que resistem à revisão de fatos que ocorreram durante a ditadura, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, defendeu ontem a criação da Comissão da Verdade. Em documento revelado pelo GLOBO semana passada, o Comando do Exército se manifestou contra a proposta e afirmou que a instituição dessa comissão criará tensões e retaliações. Para Cardozo, é um dever do Estado criar a comissão.

– Quem quiser resistir à busca da verdade o fará nos termos da expressão democrática que hoje vivemos. O que posso dizer é que a sociedade brasileira hoje quer a verdade. Se alguém é contra, que se expresse. Vamos apoiar esse projeto e, tenho certeza, o Congresso atenderá aos apelos da sociedade – disse Cardozo, durante solenidade em homenagem a mulheres anistiadas, que lutaram contra a ditadura.

Cardozo disse que o governo não vai recuar da proposta:

– É um dever do Estado criar a comissão. A verdade, o direito ao esclarecimento de fatos são um compromisso histórico, democrático. Por essa razão, o governo Lula encaminhou o projeto (em 2010). E tenho certeza que, por essa razão também, ele será aprovado – disse o ministro.

"Época obscurantista
precisa ser lembrada"

Ao discursar no evento, o ministro enalteceu a atuação das mulheres que combateram a ditadura:

– Temos orgulho das nossas combatentes. Temos orgulho daquelas que morreram lutando contra opressão.

O período do regime militar foi classificado por Cardozo como uma época obscurantista e que precisa ser lembrada para não ser repetida:

– Muitas mulheres tombaram, lutaram e algumas sobreviveram. Temos que resgatar essa memória e assumir os erros do Estado no passado para que isso não mais aconteça.

O ministro também defendeu o direito de essas mulheres serem anistiadas e receberem indenizações pelos de perseguição política:

– O estado de direito tem por característica não só fazer valer as regras atuais. Mas também que os direitos do passado sejam reparados. E a Comissão de Anistia está aí para isso. Esse compromisso passa também pela questão financeira e moral. É um direito por lei e por Justiça.

Para Cardozo, reparar os males do passado, além de anistiar e indenizar, é também praticar gesto pedagógico:

– Na luta heróica de vocês, muitas sucumbiram. Mas esse passado não será apagado. E isso não mais se repetirá no Brasil.

No evento, três antigas companheiras de cela da presidente Dilma Rousseff, na "torre das donzelas", no presídio Tiradentes, de São Paulo, foram homenageadas: Rose Nogueira, Rita Sipahi e Sônia Hipólito dividiram o mesmo espaço na cadeia para onde eram levadas as ativistas, depois de serem interrogadas e submetidas a torturas em instalações do DOI-Codi e do Dops.

Viúva de Jango
também recebe homenagem

Avessa a eventos e homenagens públicas, Maria Thereza Goulart, viúva do ex-presidente João Goulart, também compareceu. Ela recebeu documento da sua condição de anistiada política. Com o marido, viveu no exílio, retornou ao Brasil para enterrá-lo, em 1976, e voltou definitivamente, em 1980.



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