Acusada de matar os pais, filha de ex-ministro é presa

28 de janeiro de 2011

Acusada de ser a mandante da morte de três pessoas, entre elas os próprios pais, Adriana Villela, 46 anos, foi detida ontem pela manhã no Rio de Janeiro (RJ), onde passava férias. Esta é a segunda vez que a Justiça do DF decreta a prisão da arquiteta, sob o argumento de que atrapalha as investigações. A decisão do juiz Fábio Francisco Esteves, do Tribunal do Júri, tem relação direta com a investigação paralela de agentes da 8ª Delegacia de Polícia, no Setor de Indústrias e Abastecimento (SIA), realizada no município mineiro de Montalvânia, distante 640km da capital do país. O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios apurou que os policiais agiram para esconder a existência de uma mandante.

 

Comandada pela delegada Deborah Menezes, então à frente da unidade policial do SIA, a equipe de investigadores iniciou uma apuração própria, ignorando o trabalho desenvolvido pela Coordenação de Crimes Contra a Vida (Corvida), responsável oficialmente pela apuração da morte do casal de advogados José Guilherme Villela, 73 anos, e Maria Carvalho Villela, 69, além da governanta principal da família, Francisca Nascimento da Silva, 58. Os três foram assassinados a facadas em 28 de agosto de 2009, no apartamento dos Villela.

 

As supostas irregularidades praticadas por policiais civis foram apuradas pelo Núcleo de Investigação e Controle Externo da Atividade Policial (NCAP), órgão ligado ao Ministério Público — os promotores estiveram em Montalvânia (MP) para investigar a atuação policial. Segundo o MP, os agentes da 8ª DP ignoraram intencionalmente uma testemunha que apontava Adriana Villela como a mandante do crime. “Eles localizaram a pessoa, fizeram interrogatório, mas não deixaram que ela contasse tudo o que sabia. Houve falhas com o objetivo de afastar a existência de uma mandante”, explicou o promotor do Tribunal do Júri de Brasília Maurício Miranda.

 

 

A testemunha em questão é um agricultor de 30 anos, que contou a história com exclusividade ao Correio Braziliense em 19 de novembro do ano passado. Ele afirmou ter sido procurado pelo ex-porteiro do Bloco C da SQS 113 Leonardo Campos Alves, 44 anos, em fevereiro de 2009. Leonardo estaria interessado em contratá-lo para “fazer um serviço” na capital federal a “mando de uma mulher”. A testemunha, no entanto, teria recusado a proposta. Além do ex-porteiro do prédio das vítimas, estão presos Paulo Cardoso Santana e Francisco Mairlon Barros Aguiar, acusados de serem comparsas de Leonardo.

 

Ouvido posteriormente pela Corvida, depois que a unidade assumiu as investigações, o agricultor confirmou a história e revelou que teria tentado, em vão, alertar os agentes da 8ª DP sobre a existência de uma mandante. “Falei com ele (policial): Estou no risco (sic) de o mandante vir aqui e fazer alguma coisa comigo e com a minha família. Aí o policial falou: ‘Não tem mandante. Não existe mandante. O Leonardo já confessou (o crime)’”, assegurou a testemunha, em depoimento à Corvida.

 

O agricultor ainda tentou argumentar que o ex-porteiro poderia estar protegendo alguém. “Eu falei assim: ‘O Leonardo pode estar encobrindo alguma coisa’. Aí ele (o policial) falou: ‘Ele não está encobrindo (nada). Ele já confessou’.” A testemunha acrescentou que, por mais de uma vez, manifestou preocupação com relação “à pessoa que possa ter mandado fazer esse crime”. Mas que sempre foi ignorado pelos agentes da 8ª DP. Questionada sobre a relação entre a ação da polícia e a arquiteta Adriana Villela, uma fonte do MP afirmou que “ao que tudo indica, a única beneficiária da ação deliberada da polícia para esconder a existência de uma mandante é a própria mandante. Os policiais jamais fariam isso com o único propósito de serem processados”, comentou a fonte.

 

Providências

 

A investigação sobre a suposta conduta irregular dos policiais está em fase final de conclusão. Em nota divulgada na tarde de ontem, o Ministério Público do DF informou apenas que o NCAP tomará “as providências cabíveis” quanto aos supostos desvios de conduta da polícia. Procurada, a delegada Deborah Menezes não foi localizada para comentar as denúncias.

 

Desde a segunda quinzena deste mês, o caso da 113 Sul ganhou o reforço de mais duas promotorias do Tribunal do Júri. Além de Maurício Miranda, também atuam no processo os promotores Marcelo Leite Borges e José Pimentel Neto. O pedido de prisão preventiva de Adriana Villela foi apresentado pelo Ministério Público no último dia 17, mas a decisão da Justiça foi decretada na última terça-feira e cumprida ontem.

 

A primeira prisão da filha do casal Villela ocorreu em 16 agosto do ano passado. Dois dias depois, a defesa de Adriana entrou com pedido de habeas corpus, que foi negado pelo Tribunal de Justiça do DF. A acusada chegou a ser levada ao local do crime, na companhia de investigadores, no dia em que o triplo homicídio completou um ano. Em 2 de setembro do ano passado, ela deixou a prisão, depois de 18 dias atrás das grades. Ela ainda cumpriu 12 dias de prisão domiciliar, até ficar livre.



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