Estamos quase chegando lá, no limite da barbárie…

25 de maio de 2009

Estudante é estuprada em sala de aula de Faculdade. Bandidos invadem condomínio e matam menina de oito anos com um tiro na cabeça. Assaltantes roubam quarenta passageiros em ônibus. Bando faz arrastão em via movimentada. Marginais recebem polícia à bala. Quadrilha assalta e põe fogo em posto de pedágio. Comerciantes pagam “proteção” a bandidos. Menores colocam fogo em mendigo. Tráfico ordena fechamento do comércio. Assaltantes roubam banco dentro de quartel do Exército. Bandidos invadem residência e pregam morador na parede. Delegacia de polícia é invadida por bandidos. Quadrilha realiza seqüestros relâmpagos. Bandidos matam policiais dentro da viatura. Bandidos usam ônibus para fechar acessos em favela. “Tribunal do tráfico” julga e “condena” menor. Ladrões assaltam joalherias dentro de shoppings. Bandidos comandam ações criminosas de dentro de presídios. Quadrilha estoura carro forte. Caminhão tem a carga saqueada. Bandidos invadem hospital e libertam comparsa e por aí afora.

Essa barbárie misturada com desordem me fez lembrar Maiakovski e seu poema mais famoso. Embora muito popular, não custa repeti-lo, sua atualidade é impressionante, parece que foi pensado para os dias de hoje: “Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor no nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam o nosso cão. E não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho na nossa casa, rouba nossa lua, e, conhecendo nosso medo, arranca nossa voz da garganta. E porque não dissemos nada. Já não podemos dizer nada”.

O que preocupa nesse estado de coisas é a sensação de que não existe solução. Parece que essa desgraça que assistimos dia após dia é algo “reservado” pra gente pelo criador; como se fosse normal barbárie conviver com cidadania. Mas, mesmo que isso fosse possível, o criador certamente distribuiria de outra forma tanta coisa ruim… Mas o “show” não pode parar, continuamos assistindo futebol, indo ao cinema, discutindo política, tomando cerveja e caipirinha para relaxar. Continuamos comendo churrasco no fim de semana e degustando caranguejo na beira da praia. Enquanto isso prosseguem os assassinatos, assaltos, estupros, arrastões e todo tipo de maldade. “Faz parte”, é o que nos resta dizer.

Certamente muitos dirão que é cômodo falar de coisas que todos estão vendo, que estão cansados de saber. Alguns dirão que insisto em comentar a violência porque, como tantos outros brasileiros, fui vítima da violência, sofri dois assaltos e num deles quase morri depois de levar um tiro no rosto. Outros poderão dizer que não adianta falar, que querem é soluções que possam mudar essa realidade. Não tenho essas soluções, ninguém as tem, talvez por isso a passividade não esquece de nos enviar a fatura…

A distribuição de bolsas-família é uma boa iniciativa, ela melhorou a vida de muita gente, mas ainda não é o bastante.  O fato de o país fazer parte das maiores economias do mundo também é importante, mas essa pujança precisa ser usada para proporcionar humanidade aos cidadãos. Se continuarmos a viver em fortalezas, atrás de grades, cercados de muros e vigiados por câmeras o tempo todo e, mesmo assim, vermos os tais muros serem escalados por bandidos para roubar famílias e assassinar crianças, isso terá um valor relativo. Uma quadrilha chegou a ponto de distribuir uma cartilha mostrando como os cidadãos devem ser brutalizados e as mulheres desrespeitadas. Essa barbárie é vergonhosa, precisa ter um fim.

Os brasileiros precisam deixar claro que a situação chegou num ponto inaceitável. Que a vida e a honra estão acima de tudo. Não faz tanto tempo, milhares de jovens pintaram a cara e saíram às ruas para derrubar um presidente acusado de corrupção. Está na hora dos jovens voltarem às ruas, mas agora acompanhados do restante do povo… Está na hora de demonstrar indignação e exigir que o país desfrute a civilização em toda a sua plenitude. Criminalidade sempre existiu, mas só não vê quem não quer que, apesar de alguns avanços, estamos nos aproximando perigosamente do limite da barbárie.

Precisamos rediscutir o país. Grandes concentrações como foi feito no “diretas já” poderia ser o primeiro passo. Essa ralé arrogante e impiedosa que se apossou do país precisa entender que ninguém suporta mais suas crueldades. Estou cansado de ouvir dizer que não adianta aumentar penas, que não existem cadeias para todos, que pena de morte não é solução, que não adianta valorizar os policiais, que não adianta punir menores infratores – parece que nada adianta. A solução foi desarmar os cidadãos, foi criar uma lei protegendo os tais menores que matam como gente grande; foi garantir direitos humanos de bandidos, impedindo uso de algemas e a divulgação de seus “honrados” nomes. Essa gente que infelicita a nossa vida e rouba o nosso futuro é uma minoria, precisamos colocá-los no lugar que lhes pertence… Está na hora da reação, de construirmos uma nova sociedade, de exigirmos um novo pacto social.

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