CPI aperta o cerco a Satiagraha

25 de março de 2009

O agente da Agência Brasileira de Inteligência Márcio Seltz reiterou ontem, em depoimento à CPI das Escutas Clandestinas da Câmara, que entregou a Paulo Lacerda, ex-diretor-geral da agência, os áudios de parte das interceptações telefônicas realizadas durante a Operação Satiagraha, da Polícia Federal. Seltz disse acreditar, porém, que Lacerda pode não ter percebido que tinha os áudios em suas mãos, uma vez que eles foram encaminhados dentro de um pen-drive que também reunia o relatório elaborado pelo agente sobre a Satiagraha – documento solicitado pelo ex-diretor.

No primeiro depoimento à CPI prestado no ano passado, Seltz revelou que havia entregado os áudios a Lacerda – que negou a informação. A revelação do agente se transformou em uma das principais contradições identificadas pela CPI no depoimento prestado por Lacerda à comissão.

Seltz disse que as gravações continham, em sua maioria, conversas entre jornalistas e investigados pela Satiagraha – como o megainvestidor Naji Nahas e o banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity. A pedido da CPI, Seltz revelou nomes de alguns jornalistas flagrados pelos grampos, mas disse acreditar que os investigados eram os verdadeiros grampeados pela PF.

– Os diálogos não tinham nada de comprometedor. Às vezes eram diálogos em que os jornalistas apenas pediam para falar com as pessoas. Eu acredito, e tenho convicção, de que quem estava interceptado eram os investigados – afirmou Seltz. O agente disse que repassou o pen-drive a Lacerda a pedido do próprio ex-diretor da Abin. Lacerda, no entanto, teria solicitado para ter acesso somente ao relatório que estava sendo produzido por Seltz, a pedido do delegado Protógenes Queiroz, sobre reportagens a respeito dos investigados pela Satiagraha.

Sistema paralelo

Agentes da Agência Brasileira de Inteligência que prestaram depoimentos sigilosos hoje à CPI das Escutas Clandestinas da Câmara confirmaram que a Polícia Federal possui um segundo sistema de armazenamento e análise de interceptações telefônicas, além do chamado "guardião". Sem revelar o nome do sistema, utilizado pela PF durante a Operação Satiagraha, um dos agentes afirmou que teria partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a determinação para que a Polícia Federal realizasse a operação Satiagraha.

No depoimento sigiloso, o agente Lúcio Fábio Godoy de Sá disse aos deputados que foi informado pelo delegado Protógenes Queiroz de que teria partido de Lula a orientação para a realização da Satiagraha. O presidente estaria preocupado, segundo o agente, com investigações em torno do seu filho Fábio Luiz da Silva, conhecido como Lulinha.

O depoimento de Godoy faz ganhar força a versão de que Protógenes teria investigado ilegalmente autoridades dos três Poderes. A CPI quer esclarecer a denúncia com Protógenes, que presta depoimento à comissão na quarta-feira, dia 1º.

– O Protógenes vai ter que dizer se foi ele que disse isso sobre o presidente Lula. Por que essa operação da Polícia Federal teve esse tamanho? – questionou o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR). Os deputados também querem saber detalhes do segundo suposto sistema de armazenamento e análise de áudios em posse da PF, além do guardião. No depoimento sigiloso prestado à comissão, Araújo disse que realizou transcrições de áudios no outro sistema, mas disse não ter conhecimento do seu nome nem das funções que poderia executar.

O presidente da CPI, deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), disse que os depoimentos dos agentes mostraram que a Operação Satiagraha não seguiu os "ditames normais" previstos pela PF.



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