Mais alto o coqueiro… 

6 de junho de 2008
Tudo na vida tem um preço. A alta exposição de um político aos holofotes, por exemplo. Rende fama, votos – com sorte em quantidade suficiente até para governar um país -, mas o torna mais visível à mira do inimigo e adjacências.

Quanto mais importante é a pessoa, mais importância tem o que faz e o que sobre ela se diz. Tudo é amplificado: malfeitorias e benfeitorias.

A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, vem tomando contato com a dura realidade.

Ocupa o segundo cargo mais importante do Executivo, recebeu do presidente Luiz Inácio da Silva um codinome popular e foi por ele escalada para circular fantasiada de representação de expectativa de poder. Dilma hoje é uma celebridade em face da técnica obscura que até outro dia cuidava das Minas e Energia.

Em contrapartida, passou a ter seus passos estreitamente vigiados.

Por isso um dossiê de intimidação política ganha dimensão muito maior quando feito dentro de seu gabinete e, também por isso, a ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil Denise Abreu se anima a revelar as pressões de Dilma sobre a Anac no intuito de abrir caminho aos clientes de Roberto Teixeira, o já notório compadre do presidente, na venda da Varig.

A mesma notícia divulgada à época em que tudo ocorreu, há cerca de dois anos, não teria o mesmo sabor nem impacto de hoje. Uma coisa é a interferência de uma ministra em negócios privados. Grave.

Outra é a ingerência materializada na figura do braço direito do chefe da Nação, por ele ungida à condição de candidata a presidir a República a partir de 2010 por quatro anos, com direito a mais quatro. Gravíssimo.

O mesmo raciocínio aplica-se ao caso do dossiê dos gastos da Presidência na gestão Fernando Henrique. Até Erenice Guerra, principal auxiliar de Dilma e figura habitualmente secundária, ganhou a prerrogativa de aparecer nos créditos dos escândalos.

Só foi citada nominalmente por Denise Abreu neste por causa de sua atuação destacada no episódio anterior.

Isso é uma constatação provada e comprovada. Nada tem a ver com o argumento de defesa do governo, de que as acusações contra Dilma não passam de armações alimentadas por adversários, em função da notoriedade recém-adquirida.

Nos dois casos, a teoria da conspiração não resiste aos fatos. Há outros exemplos de holofotes que fizeram mal aos personagens.

Para citar apenas dois: Roseana Sarney, cuja candidatura a presidente foi atropelada quando a Polícia Federal flagrou dinheiro vivo de origem não explicada em empresa de sua propriedade; e Jader Barbalho, alvejado quando achou que poderia presidir o Senado apesar do estoque de denúncias em sua vida pregressa.

Renan Calheiros talvez tivesse conseguido manter em sigilo os detalhes sobre o pagamento da pensão de sua filha se fosse apenas um senador comum e não o presidente do Senado.

Todo agente público precisa saber onde pisa. Mas os que se aventuram pelo terreno da visibilidade total precisam saber algo mais. Lição resumida com propriedade por Billy Blanco há muitos anos nos versos de A Banca do Distinto.

“Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco, afinal, todo mundo é igual quando o tombo termina com terra por cima e na horizontal.”

Meia palavra

Não terá passado despercebida a olhos de lince palacianos uma declaração da ex-ministra Marta Suplicy na entrevista publicada quarta-feira na Folha de S.Paulo, atribuindo a Lula a derrota na tentativa de se reeleger prefeita da capital paulista, quatro anos atrás.

“Tenho o firme propósito de reconquistar os eleitores da classe média que me elegeram em 2000 e que perdi em 2004. Acho que isso tem a ver com a minha identificação com o governo Lula. Agora a avaliação do governo é outra, e isso pode me ajudar.”

A largada

Apesar de pedir auxílio, Marta já mostrou que não vai esperar por Lula sentada. Começou a campanha no primeiro dia longe do ministério obrigando o adversário a entrar na disputa externa antes de conseguir a briga interna pela partilha do PSDB entre Kassab e Alckmin.

Farsa

Ã? difícil saber qual o pior relatório “paralelo” produzido pela oposição a título de conclusão da CPI dos Cartões: se o oco documento lido na semana passada ou se o relato apresentado ontem, recheado de imputações superficiais, do gênero “gastos excessivos em hotéis caríssimos”.

A oposição pede ao Ministério Público que aprofunde as investigações, mas, na verdade, transfere aos procuradores a responsabilidade que não assumiu na CPI: a investigação propriamente dita.

Quem numa semana se confessa carente de dados para acusar alguém e na seguinte pede o indiciamento de dezenas de pessoas brinca com o discernimento alheio.

 



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