Tráfico ameaça moradores  

14 de Fevereiro de 2008

Pelos becos das favelas dos complexos do Alemão e de Manguinhos, traficantes do Comando Vermelho (CV) vêm espalhando ameaças aos moradores desempregados interessados em trabalhar nas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

O objetivo da intimidação seria o de dificultar a formação de equipes e, conseqüentemente, enfraquecer o programa, que prevê a ocupação de áreas dominadas pelo tráfico com policiamento de rotina.

As denúncias chegaram aos agentes da Coordenadoria de Inteligência da Polícia Civil (Cinpol). Os policiais investigam a autoria das ameaças, que estariam sendo transmitidas pelos â??vaporesâ?? â?? â??vendedoresâ?? das bocas-de-fumo â?? nas comunidades.

â??Eles dizem que até aprovam as obras, que vão melhorar a nossa vida aqui na favela. Mas não aceitam de jeito nenhum a presença da polícia na comunidadeâ?, revela V., 57 anos. Morador da Favela da Fazendinha, ele contou que pretendia se inscrever para trabalhar como pedreiro durante as obras no Complexo do Alemão.

Com medo de represálias, V., que está desempregado e vive de â??bicosâ?? há três anos, desistiu de se cadastrar. â??Não posso arriscar a minha vida e a da minha família. Moramos aqui há 28 anos e não temos para onde ir se formos expulsos. Por isso, eu e outros companheiros acabamos desistindo de trabalhar no PAC. Nenhum emprego vale mais que nossa vidaâ?, desabafa o morador.

POUCAS INSCRIÃ?Ã?ES

A intimidação dos traficantes parece estar surtindo efeito. Prova disso é o baixo número de candidatos inscritos no programa desde o início do ano, quando começou o cadastramento nas agências da Secretaria Estadual de Trabalho e Renda, instaladas próximas a essas comunidades. Hoje, começam a funcionar na Rocinha e no Alemão os postos itinerantes de inscrição.

Procurada por O DIA, a secretaria não informou o número de inscritos nos complexos de Manguinhos e do Alemão. Já na Rocinha, só 380 haviam se cadastrado até o dia 1º, contrastando com a expectativa de 10 mil inscrições. Segundo líderes comunitários, o tráfico agora teria â??autorizadoâ?? a participação dos moradores nas obras.

Ainda assim, a secretaria preferiu mudar o posto de inscrição para fora da Rocinha. O mesmo aconteceu em Manguinhos â?? a pedido da Associação de Moradores â??, onde, na terça-feira, dois bandidos morreram e seis pessoas ficaram feridas durante operação da PM.

Como O DIA noticiou ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi convidado pelo governador Sérgio Cabral para acionar o bate-estaca dia 27.

Trabalhadores cobram ação do Estado

Moradores relatam que as intimidações não se limitam ao ato de inscrição para trabalhar nas obras. Além das ameaças de expulsão ou até assassinato, quem vive nas favelas do Alemão e de Manguinhos foi proibido até de conversar e oferecer água aos trabalhadores do PAC.

As intimidações se estendem ainda a todos que denunciem o boicote às obras do PAC. O morador H., de 37 anos, que pretendia trabalhar em marcenaria, desabafou, mesmo diante do risco de sofrer retaliações: â??Não aguento mais viver submisso a esses marginais, tendo de respeitar as ordens deles. Tudo o que eu quero é poder trabalhar para alimentar minha família. Meus filhos precisam comer. Não vou roubar ou agir como esses criminosos para garantir o alimento delesâ?.

Outro morador, J., 28 anos, relatou : â??Nunca trabalhei com carteira assinada. Estava contando com este emprego nas obras do PAC para realizar meu sonho, que era trabalhar com registro, e agora estou sendo proibido pelos traficantes. O Estado precisa fazer alguma coisa para garantir meu direito de trabalharâ?.

Para as mulheres, a Secretaria Estadual de Obras promete criar cursos profissionalizantes. Apesar de 20% das vagas serem destinadas para candidatas, as associações de moradores das favelas afirmam que não há número suficiente de trabalhadoras qualificadas para esse tipo de serviço. Ao todo, serão oferecidas 4.600 vagas de trabalho nas três comunidades beneficiadas. 



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